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Quinta-feira, 28/08/2008
Capitão Nascimento: ídolo da juventude holandesa.E era bom mesmo que prestássemos muita atenção no letreiro. Ou alguém aí acredita que assim que o alto-falante do trem anunciasse Zeeburgerdijk nós compreenderíamos perfeitamente e despertaríamos numa relax, numa tranqüila, numa boa para descer do trem?
Compreender o tal do dutch é coisa pra gente com poderes sobrenaturais – sempre achei minha amiga Tineke Bronkhorst meio mutante... Sei não, mas tenho cá minhas dúvidas se a televisão holandesa teria coragem de implantar um quadro como o Soletrando do Caldeirão do Huck. Seria humilhação demais para aquelas jovens cabecinhas loiras...
E enquanto esperávamos a palavra impronunciável com z surgir, eis que se senta à nossa frente um guri negro, por volta de 18 anos, que nos dá uma aula prática de como preparar um drink muito apreciado na Holanda, o nederlands grote pijp, ou, em bom português “dos mano” lá da vila, tubão holandês mesmo.
A diferença está no preparo e na forma de servir. Sai a cachaça incha-caixão e entra uísque Red Label - tubão de primeiro mundo é outra nível, malandro! Deixe a garrafa pet dois litros de lado e sirva em copo plástico mesmo.
Na seqüência, o processo é o mesmo. Basta dar aquela bronzeada engana-trouxa no drink com uma coca-colazinha ou uma pepsizinha mesmo, que foi o caso (por sinal, Coca-Cola e Pepsi também se escrevem Coca-Cola e Pepsi em holandês – há mais coincidências entre a língua de Camões e a de Anne Frank do que julga nossa vã filosofia...) E como bem demonstrou nosso barman de trem, recomenda-se degustar o nederlands grote pijp ao estilo cowboy – sem gelo, ou, se preferir, ijs, como bem diria Johan Cruyff, sem o menor receio de errar no sotaque.
A única indelicadeza do simpático, porém mal-encarado mano holandês durante a aula foi jogar no chão a garrafa de refrigerante. O que não agradou em nada a cobradora do trem e os outros passageiros. Lá de sua cabine – e que cabine, meu amigo, parecia que a mulher era do Jornada nas Estrelas e conduzia a Enterprise – a cobradora anunciou que não se deve jogar lixo no interior do trem. Em holandês, é óbvio. Como eu estava assistindo tudo aquilo em poltrona de gala, não precisei de legendas. E o nosso amigo barman nem aí, só molhando o beiço em seu happy hour particular.
Até que um cara sentado atrás dele levantou enfezado. Era um sujeito branco e alto que em um holandês tão cortês quanto o mugido de uma morsa mandou o rapaz catar a garrafa do chão. Nosso intrépido bebum dos trilhos não curtiu muito ser tirado de seu transe etílico. Mesmo assim foi educado. Mandou sinceras lembranças à mãe de seu interlocutor, perguntando como ia a osteoporose dela e se ela continuava a fazer aqueles deliciosos bolinhos de chuva e tudo o mais. O que, não sei por quê, também não agradou nosso amigo branquelo.
Eis que quando o catiripapo ia comer solto nos trilhos de Amsterdam, a bendita garrafinha de Pepsi vai justamente para o meu lado. Os dois param de trocar gentilezas e passam a acompanhar com os olhos a garrafa, que mansamente pára nos meus pés. Eu me abaixo e, no meu inglês de fazer a rainha Elizabeth se sentir analfabeta, digo que eles não precisavam brigar, que pegaria a garrafa e jogaria no lixo. É a diplomacia brasileira cumprindo seu papel no cenário internacional de conflitos, pensei eu ingenuamente.
Pois assim que pego a garrafa, os dois me olham com carinhas nada angelicais. O branco desce logo na estação seguinte. Não sem antes me dizer algumas palavrinhas cordiais, que para o português poderiam ser mais ou menos traduzidas assim: “*##*@¨*##*@¨*##*@¨*#.”
Já o rapaz negro se vira pra mim e diz em inglês
- Ei, cara, qualé a tua? Tu não devia ter catado a garrafa do chão, não. Esse cara não é da polícia nem nada pra falar comigo desse jeito... Cara, tu não devia...
Pedi desculpa e seguimos viagem. Mas o bebum estava mesmo a fim de aprontar. Ligou o som do celular no último, no que levou outra bronca da moça da Enterprise.
E agora foi a vez de uma senhora já de idade interceder. Muito educadamente (de verdade) ela o convenceu a baixar o volume. E ainda quis puxar papo conosco. Perguntou de onde éramos.
Bastou dizer que era do Brasil que a coisa mudou. Na hora o bebum levantou e disse em bom tom “Caramba, vocês são do Brasil! Não acredito!” A cara carrancuda deu lugar àquele sorrisão maroto.
Aí ele começou a falar sem parar. Disse que era maluco para conhecer o Brasil, que queria ir numa favela. E de repente, do nada, começou a fazer com as mãos uma imitação de metralhadora, dando tiros pela boca. “Cara, eu vi o filme, Tropa de Elite, Capitão Nascimento... Ta-ta-ta-ta-ta.” Quando descemos, ele ainda nos abraçou e disse que se precisássemos de algo era só procurar por ele, pois morava por ali.
Salvo pelo Capitão Nascimento. Ou Kapitein Geboorte, na intimidade que a língua holandesa já me permite.
Arquivo pessoal
Cris e eu na estação e Barcelona após perder o trem: com cerveja a 1,20, a alegria demorou pouco para voltar.Agora ao que interessa. Conforme o prometido antes do recesso, histórias insanas é que não faltaram nas minhas férias. Rodei a Europa nesse período. E como bom viajante pé-rapado, pedi abrigo a amigos que vivem no Velho Mundo para economizar grana com hospedagem. Portanto, meu muitíssimo e sincero obrigado aos amigos Robert, Tamara, Hugo, Anais, Guilhom, Juanito, Pablo, Baltasar, Evelyn, Jorgito, Thiago, Nair, Andrey e Kelly pelo carinho e atenção.
E a loucura já começou antes do embarque, na escolha do meu parceiro de viagem. Cristiano Ramos, o Cris, é meu amigo de infância. O cara tem um talento fora do comum pra se divertir e fazer os outros rirem. Tanto que acho que nunca o vi falando alguma coisa séria – e eu conheço o cara há 24 anos. Quando a coisa pegava na viagem, eu ficava pouco tempo aborrecido. Logo, logo o Cris dava um jeito de quebrar o gelo, falando uma megabesteira, e lá se ia a minha fúria. Como da vez em que perdemos o trem de Barcelona para Valência.
Não lembro bem o porquê, mas acordamos tarde naquela manhã... Tudo bem, eu lembro. Bebemos muito na noite anterior e não acordamos no horário. O trem sairia às 9 horas da manhã. Chegamos na estação às 9h20. Ficamos os dois enfurecidos. Ficamos mais enfurecidos ainda quando descobrimos o preço do próximo trem, que só tinha poltrona na primeira classe: 65 euros (havíamos pago 20 euros na passagem que perdemos). Como não tinha jeito, compramos - quando passou na maquininha, meu cartão de crédito chorava mais do que leitão sendo morto pra virar pururuca. Pra piorar, o trem só sairia às 14 horas e de outra estação...
Depois da facada, sentamos no banco da estação e começamos a discutir. Quando a briga começou a ficar feia, o Cris resolveu dar uma volta. Falei que era melhor mesmo ele sumir da minha frente.
Enquanto isso, liguei pro meu amigo Juan González, que nos hospedeou em sua casa, para avisar que chegaríamos atrasados a Valência. Contei o que havia acontecido e ele me respondeu às gargalhadas: "Marcos, no sé porque, pero esto que me dices no me sorpreende en nada..." Um dia em julho de 2007, quando conheci o Juanito viajando pela Argentina, eu tive que largar as malas no meio da rodoviária de Buenos Aires e sair correndo feito um louco atrás do ônibus que nos levaria a Rosário. Estávamos atrasados pelo mesmo motivo (não, eu não aprendi...).
Sei que não deu dez minutos e o Cris voltou, com um sorriso escancarado no rosto. Quando vi aquilo, meu sangue subiu ainda mais. “A gente se f... aqui e o cara rindo...” Mas na seqüência veio a explicação. Muito louvável, por sinal.
- Marquito, olha o que eu achei. Cerveja de litro a um eurico e 20 centavos!! – me mostrou ele com um sorriso de uma orelha a outra e duas garrafas da cerveja San Miguel nas mãos, adquiridas no mercadinho turco em frente à estação. Abre parêntesis – os imigrantes turcos, árabes e chineses têm uma função muitíssimo importante no complexo sistema da sociedade européia: vender coisas baratas a viajantes durões em seus mercadinhos e restaurantes. Deus salve esta gente! – fecha parêntesis. Pra quem vinha pagando a média de 3 euros por um simples copo de 300 ml de cerveja, encontrar garrafa de um litro a 1,20 era tirar a sorte muito grande.
Bebemos nossa cerveja e viajamos rindo de Barcelona a Valência, falando besteira o tempo todo, com a bela paisagem do litoral espanhol a passar pela janela de nossas poltronas amplas e confortáveis. Ali compreendi que a alegria realmente custa pouco. Mesmo quando ela viaja de primeira classe, em euros e é você quem paga.
Senhoras e senhores, nos próximos dias estarei de férias. Portanto, este espaço estará temporariamente em recesso. Mas os senhores não perdem por esperar. Não é porque estarei descansando que deixarei de coletar boas histórias para aqui serem contadas. Aguardem!!!
Omissão é dos defeitos mais deprimentes do caráter humano. Ao contrário de outros tantos - mesquinharia, ganância, avareza, etc -, omissão não é coisa de gente de má fé. Quem se omite não visa fazer maldade. Quem se omite quer apenas se livrar de responsabilidades. E nada mais deprimente do que uma pessoa que se esquiva de algo que é capaz de fazer só para evitar o incômodo de colidir com alguém.
A habilidade permite a Kaká se impor em campo. Pena que o talento sozinho não seja suficiente para fazer com que ele também se imponha fora do gramado.
Quem tem que decidir se quer ou não jogar a Olimpíada de Pequim é o próprio Kaká. Não os diretores do Milan. Ao contrário do trabalhador normal, que tem os carnês de contas pra pagar no fim do mês e não pode nem pensar em questionar o chefe que toma uma decisão errada com medo de perder o emprego, ele pode peitar seu superior. Mas não o faz. Prefere dar declarações sem sal – no bom português, tirar da reta. “Gostaria de ir à Olimpíada. Mas se o clube vetar, o que posso fazer?”, publica o site do jornal carioca O Globo.
Pode muito. Kaká poderia lembrar o presidente do Milan de que é o melhor do mundo. De que sozinho garante retorno de milhões de dólares ao clube. Também poderia lembrar que não vai jogar qualquer torneio. Vai representar a seleção de seu país em uma Olimpíada – sonho de qualquer atleta, ou ao menos dos sensatos.
Assim como fez o lateral Rafinha, que não tem nem 1% do prestígio de Kaká. O ex-jogador do Coritiba, principal cotado para assumir a ala direita em Pequim, deixou um recado muito claro aos dirigentes do alemão Schalke 04. “Se eu for convocado e não me liberarem, podem ter certeza de que vou arrumar a maior confusão."
Ao contrário de Kaká, Rafinha já se deu conta de que não basta saber se posicionar dentro das quatro linhas. É preciso se posicionar na vida.
Gostaria muito de conhecer um desses diretores de novela. Eu me apresentaria ao sujeito e perguntaria sem cerimônias: meu amigo, diz aqui pra mim, só entre nós, que país é esse que vocês retratam aí nessas histórias. Porque o Brasil é que não é.
Toda vez que faço reportagem em delegacias, fico à procura de um computador com tela de plasma. Acredito piamente que um dia hei de encontrar um policial registrando boletim de ocorrência em um desses totens da modernidade. Igualzinho na televisão, naquelas salas empoladas, com direito a ar-condicionado e móveis novinhos em folha. Mas tem sido difícil encontrar. Muito difícil, eu diria. E olha que já rodei praticamente todas as delegacias de Curitiba e região a trabalho.
Não posso ser injusto: já vi sim computadores com tela de plasma em delegacias. Muitas vezes. Só que não estavam nas mesas dos policiais. Nem ligados à tomada. Estavam dentro de caixas de papelão. Eram apreensão de contrabando.
O mesmo se passa nos hospitais. Na novela, o sujeito chega agoniando ao pronto-socorro e sempre tem um leito à sua espera. Não só. Sempre tem toda uma equipe médica exclusivamente à disposição dele. Parece até que ficam esperando exatamente o dia em que aquele cara vai surgir porta adentro. Todas as atenções são para ele, o paciente vip da novela.
Não há superlotação dos leitos. Nem corredores cheios de macas com pacientes em estado crítico. Nem corre-corre de médicos e enfermeiros se desdobrando em mil para atender a um público que é o dobro, o triplo, o quádruplo da capacidade do hospital. E muito menos gente reclamando, quase agredindo os funcionários do hospital, pela falta de atendimento.
O médico examina, avalia a gravidade do paciente (ali mesmo, na hora, pois os equipamentos dos hospitais públicos de novelas nunca quebram) e não titubeia em ordenar: “Levem pra UTI". Tudo muito simples. Ligar pra Central de Leitos pra quê?
Nas escolas, nenhuma pichaçãozinha, nenhum rabisco, nada nas paredes. As carteiras todas lisinhas. As salas de aulas com o número certinho de alunos que o espaço realmente comporta. E, vejam o absurdo, os estudantes vão à escola pra aprender. Não pra comer a merenda ou garantir o direito dos pais de sacar o Bolsa Família.
Não há traficantes nas redondezas das escolas das novelas. Logo, nenhum dos estudantes tem contato com drogas. São adolescentes corados e saudáveis, que se dedicam exclusivamente a estudar, sem precisar ajudar os pais no trabalho.
Nas escolas particulares retratadas nas novelas, os alunos voltam tranqüilamente a pé pra casa. Todos ornamentados com seus ipods, mp3 players, celulares de última geração, roupas e tênis de marca. Os ladrões - se é que eles existem nas novelas - estão bem longe.
Nas escolas públicas da televisão, os alunos têm tudo à mão: computadores, bibliotecas cheias de livros, professores qualificados e com todo o tempo do mundo para preparar suas aulas e atividades extra-classe. Tanto que nenhum dos docentes nem sabe o que é licença médica. Essas coisas de estresse, síndrome do pânico e depressão não caem bem em um mundo tão perfeito.
Ah, como seria bom se nossos políticos deixassem de ser noveleiros e assistissem mais aos noticiários. Com certeza haveria muito menos dramas na vida real. Como haveria...
Com atraso, porém não menos sincero, o meu muito obrigado aos meus poucos leitores que foram ao Bar do Alemão sexta-feira. Após baterem boca nos comentários do blog, mais especificamente no post Curitiba, a cidade shopping, a moçada cordialmente se reuniu para jogar conversa fora, rir, beber uns submarinos, e passar frio - o Largo da Ordem era praticamente uma Sibéria na madrugada do dia 30
Mas nada que não fosse superado pelo calor humano - em outras palavas, pelas risadas que demos todos. Obrigado aos que compareceram: Jorge (por me explicar um pouco mais sobre o lado B do Rio de Janeiro), Daiane (por ter levado uma turma animada pra enriquecer o bate papo) e Isis (por ter agendado o local e o horário e, principalmente, por ser coxa branca como eu).
De ruim, só o desmiolado aqui que se esqueceu de levar a máquina fotográfica pra provar que o encontro realmente houve (tem uma rapaziada aqui da redação que não tá acreditando nesse encontro, achando muito surreal - risos).
Agora, fica o desafio: e o próximo, quando vai ser?
Abraços a todos!
Marcão
Segunda-feira, assisti à entrevista do jornalista e escritor português Miguel Sousa Tavares no programa Roda Vida, da TV Cultura. Não o conhecia e, pelo que passou durante o programa, simpatizei com o sujeito.
Pareceu-me um pouco um Ernest Hemingway luso: aprecia caçar, participa de provas de rally, não nega um copo cheio, fuma muito e defende com unhas e dentes o direito dos fumantes de injetarem o quanto quiserem de nicotina em seus pulmões e é fanático por futebol, mais especificamente pelo Futebol Clube do Porto, do tipo que não se tolhe nem um pouco em cutucar os dirigentes e torcedores das outras equipes portuguesas em sua coluna no diário esportivo A Bola.
É um crítico fervoroso do politicamente correto. Ao ponto de exemplificar muito bem o que essa prática gerou: “O politicamente correto produziu, como resultado final, a América de Bush.”
O sujeito aparentemente durão também é capaz de escrever isso aí abaixo. Que, aliás, me lembra muito os senhores que vejo sempre que vou almoçar – sozinho e com o jornal debaixo do braço, tal e qual o escritor - lá no Maneko’s Bar, um dos tradicionais bares/restaurantes de Curitiba que resistem ao tempo. Oxalá o bar resista até eu próprio me tornar um destes senhores - os quais, observe-se, são muito corretos.
Ao texto:
O velho de Alcântara-Mar *
Miguel Sousa Tavares
Eu estava a almoçar sozinho num restaurante, como tanto gosto de fazer, a meio do dia de trabalho. Detesto "almoços de trabalho", almoços de circunstância ou almoços de coisa alguma. Detesto almoçar os outros, resumindo. Prefiro almoçar a comida, acompanhada de uma revista ou de um jornal.
O restaurante era pouco mais que uma tasquinha de Alcântara, que tem a vantagem de ter uma comida caseira e sem pretensões e de não ser frequentado pela classe emergente dos almoços, com os telemóveis em cima da mesa, ao alcance de uma urgência, porque gente importante e ocupada é assim. Este restaurante, pelo contrário, é frequentado por uns clientes discretos, habituais e silenciosos, que vêm comer polvo cozido com todos e parecem cobertos por uma fina poeira de tristeza que os toma, de certa forma, íntimos. Íntimos, apesar do nosso mútuo silêncio, cúmplices na solidão das mesas, como marinheiros naufragados, cada um em sua ilha.
Gosto destes personagens lisboetas da hora de almoço, que comem sozinhos resmungando entre dentes, que compram lotaria, lêem os anúncios do Correio da Manhã e tratam as empregadas de mesa por "Menina isto" e "Menina aquilo". Imagino em cada um deles um Fernando Pessoa, órfão de obra e deserdado de sentimentos. São solitários e tristes, porém não são trôpegos, mas dignos, de costas direitas e cara fechada olhando em frente, quando se levantam da mesa discretamente em direcção à porta, como se deslizassem em direcção à vida.
Um dia entrou um homem destes, que eu já tinha visto anteriormente. Era um cliente de bairro, um "vizinho" do restaurante — ocasionalmente almoça, mas, regra geral, limita-se a chegar sobre o tarde, senta-se numa mesa em frente à porta com um jornal dobrado à frente, encomenda uma bica e fica a olhar para a rua, atento ao passar do tempo. Vê-se que é reformado porque não tem horário fixo nem pressa alguma. Não será viúvo, mas apenas gasto, viverá num 3° esquerdo, indiferente às lamúrias da "patroa", sentado num sofá de costas para a janela para receber a luz para as palavras cruzadas do jornal.
Mas nesse dia o homem entrou no restaurante com um sorriso luminoso na cara. Parecia ter rejuvenescido dez anos, as costas estavam mais direitas, a roupa mais alisada, o cabelo penteado deveria cheirar a água de colónia Ach. Brito. Só percebi a razão da transformação quando o vi virar-se para trás na porta da entrada e estender a mão a um miúdo que o seguia: era o neto. Passeou o miúdo pelo restaurante como se apresentasse uma namorada rainha de beleza. De mão dada com ele, foi até ao balcão e sentou-o lá em cima para que todos os empregados o vissem, sorriu à volta e fez um gesto largo para o miúdo, indicando o mostruário onde repousavam a pescada para cozer ou fritar, o leitão frio ou quente da Mealhada e as costeletas de vitela para grelhar, e disse: "Então, escolhe lá o que queres almoçar".
Pediu mesa com toalha de pano, encostada à parede, de onde todos o pudessem ver e ele pudesse ver todos. Levou o neto ao colo até à mesa, sentou-o na cadeira, atou-lhe o guardanapo de pano ao pescoço e então o miúdo agarrou-lhe a cara de repente, puxou-o para si e deu-lhe um beijo. O velho sentou-se à frente dele e olhou em frente. Encontrou o meu olhar, que devorava a cena. Por um brevíssimo instante pareceu-me que ele tinha ficado suspenso da minha reacção: queria ser visto, mas tinha medo. Inclinei a cabeça e cumprimentei-o em silêncio — foi a primeira vez que o cumprimentei: o seu olhar era líquido de ternura e firme de orgulho. Quando for velho, quero ser exactamente assim.
* O texto, do original em Português de Portugal, foi extraído do livro Não te deixarei morrer, David Crockett – Editora Nova Fronteira, 2005.
O André Pugliesi, repórter aqui da editoria de Esportes e camisa 10 no quesito camaradagem, é um caboclo de poucas palavras, mas de muitas sacadas. Mesmo falando pouco, é autor de algumas das melhores tiradas que já ouvi. E uma delas está completando um ano.
Estávamos eu, ele e a Rafa, namorada dele, caminhando pelas ruas de Botafogo, no Rio de Janeiro, quando nos deparamos com algo inusitado para nossos padrões curitibanos: um cinema de rua.
Fomos a outro bairro. Em uma das paradas do bondinho em Santa Teresa, lá em cima do morro, outro cinema de rua. Em volta, vários restaurantes simples e simpáticos, daqueles que dão vontade de se sentar, jogar conversa fora, pedir uma cerveja gelada e experimentar a comida. Exatamente o que faziam os clientes, gente humilde, inclusive, em torno das mesas.
Vendo aquilo fiquei com inveja dos cariocas. Virei pro Pugla e perguntei “por que em Curitiba as coisas não são assim, as pessoas não conseguem mais se divertir na rua?”. No que ele soltou com muita propriedade o veredicto: “Simples, Marquito. Porque Curitiba está prestes a se tornar a primeira cidade-shopping do mundo.” Mais certeiro do que a mira de Guilherme Tell. Abre parêntesis – ressalte-se que a colocação do Pugla é muito anterior à crônica do Cristóvão Tezza sobre o mesmo tema, a qual a leitura é recomendada – fecha parêntesis.
Se na cidade mais violenta do país (onde os índices de assaltos são estratosféricos e o número de homicídios deixa qualquer guerrinha no Oriente Médio no chinelo) as pessoas ainda têm opções de lazer nas vias públicas, por que em Curitiba, onde os padrões de segurança pública estão bem distantes de uma Zurique, mas que não chegam nem aos pés da capital fluminense, as pessoas têm que recorrer aos shoppings pra praticamente tudo?
Só sei que do jeito que a coisa anda é bem provável que logo, logo até os parques - símbolo da pretensa qualidade de vida curitibana - sejam transferidos para dentro dos shoppings. E dá-lhe cooper na escada rolante!
Há muito não se viam. Desde a briga em que terminaram o namoro. Já se iam anos.
Ela viajou. Estudou e trabalhou fora. Conheceu vários países, várias pessoas. Foi a lugares que muitas pessoas nem imaginam existir. Com tantas experiências, considerava ser uma pessoa muito melhor do que quando partiu. Após cuidar sozinha de si mesma longe de casa por tanto tempo, tinha certeza de que evoluíra. Ela se orgulhava disso.
Ele ficou. Seguiu a vida. Dedicou-se ao trabalho. Colecionou promoções. Virou chefe. Comandava uma equipe grande. Tinha várias responsabilidades. Não só consigo. Um batalhão de gente dependia dele. Por isso tinha que tomar decisões rápidas e certeiras. E até ali não tropeçara. Ele se orgulhava disso.
Encontraram-se sem querer na quitanda do supermercado. Ela procurava alho poró para uma receita que aprendera nas andanças pelo exterior e que faria a um grupo de amigos. Ele se esquecera da salada do churrasco que faria em casa para os amigos do futebol naquela noite. Estabeleceram contato visual entre o box do tomate e da laranja. Ela passou pelos boxes da maçã e do caqui até se aproximar dele. Ele passou pelos da cebola e da batata. Trocaram sorrisos em frente às pêras.
- Quanto tempo... – disse ele, sem conseguir pensar em nada melhor.
- Oi! Tudo bem? - respondeu ela, sem saber se dava um beijo no rosto dele ou se estendia a mão para cumprimentá-lo.
- Tudo legal. Não sabia que você tinha voltado – comentou ele, com um sorriso sincero no rosto.
- Pois é... Já tava na hora de voltar pra casa... – devolveu ela, com o mesmo sorriso.
Conversaram por mais um tempo entre as frutas, legumes e verduras. Até que ele a convidou para um café. Um queria saber do outro o que havia feito naqueles anos todos. Esqueceram do que tinham ido comprar. A receita ficaria sem alho poró. O churrasco não teria salada. Mas o tempero estava garantido: estavam próximos novamente.
Trocaram telefonemas. Voltaram a sair. Descobriram-se interessados um pelo outro como antigamente. Deixaram o orgulho de lado e reataram. Ela se orgulhava disso. Ele se orgulhava disso.
Havia prometido a mim mesmo que não iria escrever sobre o caso Isabella. Relutei o quanto pude. Mas quarta-feira, quando a transmissão de São Paulo e Nacional de Montevidéu pela Copa Libertadores foi interrompida para mostrar ao vivo a prisão do casal Nardoni, tive a confirmação de que a coisa passou dos limites. Afinal, eu mudava de canal, e lá estava o caso Isabella de volta. Mudava outra vez, e mais Isabella. De novo, de novo e de novo. Isabella, Isabella e Isabella.
A cobertura do caso deixou de ser jornalística. Ter equipes de plantão na frente da casa da família para mostrar cada passo de Alexandre Nardoni e Ana Carolina Jatobá, o que eles comem, o que eles bebem, a que horas tomam banho, a que horas choram, a que horas se arrependem do que supostamente fizeram, me desculpa, não é jornalismo. Na minha concepção esse massacre tem outros nomes. É bisbilhotice. É invasão de privacidade. E, principalmente, é desrespeito ao telespectador, leitor ou ouvinte.
Não entendo por que não põem logo o Pedro Bial pra apresentar essas notícias do dia-a-dia dos Nardoni. Porque só está faltando ele pro caso Isabella virar reality show de vez.
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