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Sábado, 22/11/2008

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Certas Palavras

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28/10/2008 às 23:32


Roberto Custódio/Jornal de Londrina

Roberto Custódio/Jornal de Londrina / Na rua: em Londrina, o povão participa da eleição. Para o bem e para o mal.Na rua: em Londrina, o povão participa da eleição. Para o bem e para o mal.
“A Justiça tarda, mas não falha.” Esse ditado, muito popular no Brasil, nem sempre se justifica. A população de Londrina sabe melhor do que ninguém o que pode acarretar uma decisão judicial tardia.

Há praticamente consenso de que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) deveria ter julgado o pedido de impugnação da candidatura do ex-prefeito Antonio Belinati (PP) antes da votação do segundo turno. Não o fez e a situação ficou muito ruim.

Belinati foi eleito com mais de 50% dos votos válidos. Nada prova que as eleições não foram limpas. A votação correu dentro das regras do jogo.

Agora, ao cassar o registro da candidatura do ex-prefeito, cria-se uma sensação de que querem derrotar o “vitorioso” no “tapetão”.

A decisão atrasada do TSE recebeu críticas de todos os agrupamentos políticos. O candidato derrotado, Luiz Carlos Hauly (PSDB), reclamou do fato de a Justiça Eleitoral ter se manifestado só depois de o segundo turno ter sido realizado.

Qualquer que seja a solução dada nos próximos dias, o trauma na cidade permanecerá. Os londrinenses já estavam divididos. Depois do julgamento do TSE, a divisão tornou-se mais grave.


Roberto Custódio/Jornal de Londrina

Roberto Custódio/Jornal de Londrina / Simpatizantes de Hauly comemoram a decisão do TSE.Simpatizantes de Hauly comemoram a decisão do TSE.
Resta saber qual será a nova decisão. Muitas são as hipóteses para o desfecho: 1) Belinati ganha no STF e assume em janeiro; 2) Belinati perde no STF e novas eleições são convocadas; 3) Belinati perde no STF e a Justiça Eleitoral dá posse a Hauly.

Qualquer dos arranjos enfrentará problemas. A Justiça Eleitoral poderia ter evitado essa confusão.

28/10/2008 às 22:20


Daniel Casatellano/Gazeta do Povo

Daniel Casatellano/Gazeta do Povo / Tezza levou o Jabuti com Tezza levou o Jabuti com "O filho eterno".
O ano ainda não terminou, mas já é possível reunir alguns dos grandes vencedores de 2008 no mundo literário. Escritores brasileiros, alguns desconhecidos do grande público e outros reconhecidíssimos, tiveram seus trabalhos reconhecidos além do país.


Benoit Tessier/Reuters

Benoit Tessier/Reuters / Ubaldo, o vencedor do Camões: Ubaldo, o vencedor do Camões: "Eu merecia".
Começamos com João Ubaldo Ribeiro, que conquistou o Camões, o mais importante prêmio atribuído a autores de língua portuguesa. O autor de Viva o Povo Brasileiro é o 8º oitavo escritor brasileiro a ser distinguido com o Camões.

Outro exemplo notório de reconhecimento internacional é o jornalista Murilo Antonio de Carvalho, vencedor do Prêmio Leya, de Portugal, com o romance O Rastro do Jaguar. Pela obra, Murilo ganhou 100 mil euros. Só para comparar, o prestigiado Man Booker Prize não chega a 64 mil euros. E mais: O Rastro do Jaguar será publicado em todos os países de língua portuguesa.

Também brilhou lá fora o mineiro Bartolomeu Campos de Queirós. Ele ganhou o Prêmio Ibero-Americano SM de Literatura Infantil e Juvenil. Bartolomeu já publicou mais de 40 obras e recebeu vários prêmios literários, entre eles o Jabuti.

No Brasil, todos as palmas vão para Cristovão Tezza, que tem uma coluna semanal de crônicas aqui na Gazeta do Povo. O filho eterno, seu mais novo livro, já conquistou o Jabuti, o Prêmio da Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA) e o Prêmio Bravo!. E todas as atenções se voltam hoje para a divulgação do ganhador do Prêmio Portugal-Telecom de Literatura. Tezza é apontado como um dos favoritos.

Dos escritores estrangeiros, a estrela do ano foi o francês Le Clèzio, com a conquista do Nobel. Embora não seja um nome de ressonância entre o grande público no mundo, Le Clèzio é tido na França como um dos maiores escritores da língua francesa hoje.


Divulgação

Divulgação / Le Clèzio levou a França de volta ao topo das Letras.Le Clèzio levou a França de volta ao topo das Letras.

Merece também menção o estreante indiano Aravind Adiga. Ele foi agraciado com o Man Booker Prize por seu livro The White Tiger (O tigre branco).


Alguns prêmios 2008

Camões
João Ubaldo Ribeiro

Leya
Murilo Antonio de Carvalho

Ibero-Americano SM de Literatura Infantil e Juvenil
Bartolomeu Campos de Queirós

Jabuti
Cristovão Tezza

APCA
Cristovão Tezza

Nobel
Le Clèzio

Man Booker Prize
Aravind Adiga

20/10/2008 às 23:34


Reprodução: Orkut

Reprodução: Orkut / As amigas Eloá Pimentel e Nayara SilvaAs amigas Eloá Pimentel e Nayara Silva
“A Júlia bebeu veneno porque o Pedro terminou o noivado”. Júlia e Pedro são nomes fictícios de um caso real ocorrido no interior do Paraná nos anos 70. Tragédias como essa sempre ocorreram. No passado, não era raro ouvir relatos de pessoas que morreram por amor. Jovens preferiram acabar com a própria vida a viver sem o amado ou a amada. Muitos também foram os casais que decidiram morrer diante da impossibilidade de viverem juntos. Shakespeare eternizou essa fatalidade em Romeu e Julieta.

Mas o suicídio não era e não é a única forma de morte relacionada ao amor. Em nome do amor também se matava e ainda se mata. Na antiguidade como nos dias atuais, muitos tentam justificar casos monstruosos em nome desse sentimento.

O homicídio da menina Eloá Cristina Pimentel, em Santo André (Grande São Paulo), pode servir de exemplo de como o amor é usado para dar razão a um fato irracional. Por mais absurda que possa ser, há adolescentes, jovens, adultos e idosos que tendem a “aceitar” essa idéia. “Ele a amava tanto que seria capaz de tudo”, comentou uma colega de escola de Eloá em reportagem publicada em sites dos grandes jornais.

A violência em nome do amor, em um passado não muito distante, era respaldada até na lei. Quantos maridos traídos tiveram a pena abrandada ao alegar na Justiça que matou a esposa em defesa da própria honra?

No caso da menina Eloá, ao se tentar colocar a culpa na polícia, mesmo que de forma subconsciente, há a intenção de inocentar, em parte, Lindemberg Fernandes Alves, de 22 anos. O ex-namorado de Eloá sabia sim o que estava fazendo. Ele não é nenhuma criança. Não se sustentam os argumentos de que ele era trabalhador, bom rapaz e outros elogios.

O que Lindemberg sentia por Eloá não era amor. Era, sim, um sentimento doentio. O amor não pode estar relacionado ao mal.

Sartre dizia que o ato de amor é uma tênue conquista, que se refaz a cada momento. Para ele, de um lado, o amor é uma história de respeito à liberdade do outro. De outro lado, é uma busca contínua de fazer respeitar a própria liberdade.

Um dos livros mais interessantes sobre o amor é O Banquete, de Platão (428/27 – 347 a.C.). Na obra, alguns antigos atenienses tentam explicar porque o amor exerce tanto poder sobre nós. Um dos trechos admiráveis desse livro pode explicar porque o amor não deve justificar atos de impiedade:

“Sobre a virtude de Amor devo falar, principalmente, que Amor não comete nem sofre injustiça, nem de um deus ou contra um deus, nem de um homem ou contra um homem. À força, com efeito, nem ele cede, se algo cede – pois violência não toca em Amor – nem, quando age, age, pois todo homem de bom grado serve em tudo ao Amor, e o que de bom grado reconhece uma parte a outra, dizem ‘as leis, rainhas da cidade’, é justo. Além da justiça, da máxima temperança ele compartilha. É com efeito a temperança, reconhecidamente, o domínio sobre prazeres e desejos; ora, o Amor, nenhum prazer lhe é predominante; e se inferiores, seriam dominados por Amor, e ele os dominaria, e dominando prazeres e desejos seria o Amor excepcionalmente temperante”.

O amor é compreensão, amizade, companheirismo. Amor é entender o/a outro/a, solidariedade, liberdade. E não crueldade, como ocorreu com Eloá. Não pode ser confundido com ódio, egoismo, bestialidade.

Lindemberg deve ser julgado com todo o rigor da lei. Apesar de a punição não devolver a vida de Eloá.

16/10/2008 às 23:26


Don Emmert/AFP

Don Emmert/AFP /
Uma pesquisa do Centro de Liderança Pública da Universidade Harvard mostra como os norte-americanos tem visões distintas do papel que os EUA devem desempenhar no mundo. A amostra, de 997 cidadãos, pode ser pequena, mas representa uma realidade. E o resultado confirma o que o resto do planeta já percebeu: o país se divide entre os que têm uma visão autoritária, imperialista – ou seja, os que querem a manutenção da política atual – e os defensores de uma abertura democrática, mais solidária e de entendimento.
O interessante nesse levantamento é que o norte-americano classificado como “linha dura” está do lado do republicano John McCain.
Aos dados.


O que pensam os eleitores de Obama:
- O presidente dos EUA deve ser respeitoso e diplomático
- O presidente deve se amparar em conhecimentos práticos na tomada de decisões
- Os EUA devem ser respeitados por serem justos
- A religião do presidente é uma questão privada


O que pensam os eleitores de McCain:
- O presidente dos EUA deve estar disposto a ofender e fazer inimigos
- O presidente dos EUA deve tomar decisões com base em valores morais
- Os EUA devem ser respeitados por sua força
- A religião do presidente é uma questão pública


Em tempo: Dados sobre o estudo podem ser obtidos em: http://www.merrimanriver.com/NLIReleasePacket.pdf

10/10/2008 às 01:09

Veja fotos tiradas pelo escritor Lé Clézio, vencedor do Nobel de Literatura 2008. As fotos ilustram o livro O Africano, editado no Brasil pela Cosac Naify.


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Trecho de O Africano

"Nós não íamos à escola. Não tínhamos clube, nem atividades esportivas, nem regras, nem amigos, no sentido que se dá a essa palavra na Inglaterra ou na França. A lembrança que eu tenho desse tempo bem poderia ser a do passado a bordo de um navio, entre dois mundos. Quando olho hoje a única foto que conservei da casa de Ogoja (uma imagem minúscula, na cópia 6 x 6 comum após a guerra), custo a crer que o lugar é o mesmo: um grande quintal aberto, onde crescem em desordem palmeiras e flamboaiãs, atravessado por uma aléia retilínea onde está estacionado o monumental Ford V8 de meu pai. Uma casa bem simples, com um telhado de chapas onduladas e, ao fundo, as primeiras grandes árvores da floresta. Há algo de frio, de quase austero, nessa foto única, que evoca o império, mistura de campo militar, gramado inglês e poderio natural que só voltei a encontrar, muito tempo mais tarde, na zona do canal do Panamá.

Foi aqui, neste cenário, que vivi os momentos de minha vida selvagem, livre, quase perigosa. Uma liberdade de movimentos, pensamentos e emoções que nunca mais conheci depois. As lembranças, por certo, enganam. Essa vida de liberdade total, eu a terei, sem dúvida, mais sonhado que vivido. Entre a tristeza do sul da França durante a guerra e a tristeza do fim de
minha infância na Nice dos anos 50, rejeitado por meus colegas de classe devido à minha estranheza, atormentado pela excessiva autoridade de meu pai, exposto à enorme vulgaridade dos anos de colégio, dos anos de escotismo e, a seguir, durante a adolescência, à ameaça de ter de partir em guerra para manter os privilégios da última sociedade colonial.

Os dias de Ogoja tinham se tornado então meu tesouro, o passado luminoso que eu não podia perder. Lembrava do fulgor na terra vermelha, o sol que rachava o chão das estradas, as andanças descalças pela savana até os fortins dos cupinzeiros, a tempestade se armando à tarde, os gritos e ruídos das noites, nossa gata a fazer amor com os bichanos em cima do telhado de chapas e o torpor que vinha com a febre, de madrugada, no frio que entrava pelo cortinado do mosquiteiro.

Todo aquele calor, aquela queimação, esse arrepio."

09/10/2008 às 16:15

O francês Jean-Marie Gustave Le Clézio, pouco conhecido no Brasil, conquistou o Nobel de Literatura 2008. O escritor tem meia centena de livros publicados, mas poucos chegaram às livrarias brasileiras.

Leia abaixo trecho de O Africano, editado pela Cosac Naify. Le Clézio narra uma viagem à África, contada por um homem que percorre o caminho feito por seu pai, que viveu no continente por mais de duas décadas. A história começa nos anos 30 e vai além da Segunda Guerra Mundial.


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Literature Festival Internazionale di Roma/Reuters

Literature Festival Internazionale di Roma/Reuters / Le Clézio, na visão da Academia Sueca: “Explorador da humanidade, dentro e fora da civilização dominanteLe Clézio, na visão da Academia Sueca: “Explorador da humanidade, dentro e fora da civilização dominante".


“Todo ser humano é um resultado de pai e mãe. Pode-se não reconhecê-los, não amá-los, pode-se duvidar deles. Mas eles aí estão: seu rosto, suas atitudes, suas maneiras e manias, suas ilusões e esperanças, a forma de suas mãos e de seus dedos do pé, a cor dos olhos e dos cabelos, seu modo de falar, suas idéias, provavelmente a idade de sua morte, tudo isso passou para nós.

Por muito tempo sonhei que minha mãe era negra. Inventei-me uma história, um passado, para escapar da realidade em meu retorno da África, neste país, nesta cidade onde eu não conhecia ninguém, onde me tornara um estrangeiro. Depois descobri, quando meu pai, na idade da aposentadoria, retornou para viver conosco na França, que o Africano era ele. Foi difícil admitir isso. Tive de voltar atrás, de recomeçar, de tentar compreender. Em memória disso escrevi este
pequeno livro.

O corpo

Tenho coisas a dizer deste rosto que recebi em meu nascimento. Primeiro, foi preciso aceitá-lo.
Afirmar que não me agradava seria dar-lhe uma importância que ele não tinha quando eu era criança. Eu não o odiava: ignorava-o, evitava-o. Não o olhava nos espelhos. Durante anos, creio que nunca o vi. Desviava os olhos das fotos, como se alguma outra pessoa tivesse se posto em meu lugar.

Aos oito anos de idade, mais ou menos, vivi na África ocidental, na Nigéria, numa região muito isolada onde não havia europeus, à exceção de meu pai e minha mãe, e onde a humanidade, para a criança que eu era, se constituía unicamente de iorubás e ibos. Na choupana em que nós morávamos (a palavra choupana tem algo de colonial que hoje em dia pode chocar, mas que descreve bem a residência funcional prevista pelo governo inglês para os médicos militares, uma laje de cimento por piso, quatro paredes de blocos sem emboço, um telhado de chapas onduladas recoberto de folhas, nenhuma decoração, redes penduradas nas paredes para servir de camas e, única concessão ao luxo, um chuveiro ligado por canos de ferro a uma caixa d'água no telhado, que esquentava ao sol), nessa choupana portanto não havia espelhos, nem quadros, nada que pudesse lembrar-nos do mundo em que tínhamos até então vivido. Um crucifixo que meu pai
pendurara na parede, mas sem representação humana. Foi aí que eu aprendi a esquecer. Parece-me que da entrada nessa choupana, em Ogoja, é que data o apagamento de meu rosto e dos rostos daqueles, todos eles, que me rodeavam.

Desse tempo, por assim dizer consecutivamente, data o aparecimento dos corpos. Meu corpo, o corpo de minha mãe, o corpo de meu irmão, o corpo dos garotos da vizinhança com os quais eu brincava, o corpo das mulheres africanas nos caminhos, ao redor da casa, ou então no mercado, perto do rio. Sua estatura, seus seios pesados, a pele luzente de suas costas. O sexo dos garotos, sua glande rosa circuncisa. Rostos, sem dúvida, mas como máscaras de couro, endurecidos,
riscados de cicatrizes, de marcas rituais. Os ventres protuberantes, o cotoco do umbigo parecendo um calhau costurado sob a pele. Também o cheiro dos corpos, o tato, a pele nada áspera, mas quente e suave, eriçada em milhares de pêlos. Tenho essa impressão da grande proximidade, do
número de corpos ao meu redor, coisa que eu não havia conhecido antes, coisa nova e familiar ao mesmo tempo, que excluía o medo.

Na África, a falta de pudor dos corpos era magnífica. Dava profundidade, dava alcance, multiplicava as sensações, estendia à minha volta uma rede humana. Harmonizava-se com a região dos ibos, com o traçado do rio Aiya, com as choupanas da aldeia, seus tetos de cor amarelada, suas pare des cor-de-terra. Tal despudor sobressaía nos nomes que entra vam por mim adentro, significando muito mais do que nomes de lugares: Ogoja, Abakaliki, Enugu, Obudu, Baterik, Ogrude, Obubra. E impregnava a muralha da floresta pluvial que por toda parte nos continha.

Não usamos palavras (e as palavras não se gastam) quando somos crianças. Eu nasci naquele tempo distante, muito longe dos adjetivos, dos substantivos. Eu não posso dizer, nem sequer
pensar: admirável, imenso, poderio. Mas sou capaz de o sentir. A que ponto as árvores de troncos retilíneos se lançam para a abóbada noturna fechada acima de mim, encerrando como num túnel a brecha sangrenta da estrada de laterita que vai de Ogoja a Obudu, a que ponto nas clareiras das aldeias sinto os corpos nus, brilhantes de suor, as silhuetas largas das mulheres, as crianças que as agarram pelos quadris, tudo isso que forma um conjunto coerente, destituído de mentira.

Da entrada em Obudu, lembro-me bem: a estrada sai da sombra da floresta e penetra diretamente na aldeia, em pleno sol. Meu pai parou seu automóvel e, com minha mãe, tem de ir falar com os funcionários. Sozinho no meio do ajuntamento, não tenho medo. As mãos me tocam, passam pelos meus braços, por meu cabelo, em volta da beira do meu chapéu. Entre tantos que em torno de mim se espremem, há uma mulher idosa que afinal nem sei se é velha. Acho que sua idade é o que primeiro chama minha atenção, porque ela é diferente das crianças peladas e dos homens e mulheres vestidos mais ou menos à ocidental que em Ogoja eu vejo. Quando minha mãe volta (talvez um pouco inquieta com aquele amontoado de gente), mostro-lhe a tal mulher: "Que é que ela tem? Ela está doente?" Lembro-me dessa pergunta que fiz à minha mãe. O corpo nu dessa mulher, feito de dobras, de rugas, sua pele como um odre vazio, seus seios longos e flácidos, caindo sobre a barriga, sua pele rachada e desbotada, meio cinzenta, tudo isso me pareceu estranho e, ao mesmo tempo, verdadeiro. Como eu teria podido imaginar que essa mulher fosse minha avó? O que eu sentia não era horror nem pena, mas sim, ao contrário, esse amor e o interesse suscitados pela visão da verdade, da realidade vivida. Lembro-me apenas da pergunta - "Ela está doente?" - que ainda hoje me abrasa estranhamente, como se o tempo não tivesse passado. E não da resposta, por certo tranqüilizadora, talvez um pouco sem jeito, de minha mãe: "Não, não está doente, ela é velha, só isso". A velhice, sem dúvida mais chocante para um menino no corpo de uma mulher porque ainda, porque sempre, na França, na Europa, nos países das anáguas e cintas, das combinações e sutiãs, as mulheres normalmente estão imunes à doença da idade. O abrasamento que ainda sinto nas faces, que acompanha a pergunta ingênua e a resposta brutal de minha mãe, como uma bofetada. Isso ficou em mim sem resposta. Claro que a pergunta não era: Por que essa mulher acabou assim, gasta e deformada pela velhice?, mas: Por que mentiram para mim? Por que me esconderam essa verdade?”

29/09/2008 às 23:30


Albari Rosa/Gazeta do Povo

Albari Rosa/Gazeta do Povo / Mauri em Pacaraima, na fronteira do Brasil com a cidade venezuelana de Santa Helena, em setembro de 2005, quando fez reportagem sobre a exploração de crianças e adolescentes. Mauri em Pacaraima, na fronteira do Brasil com a cidade venezuelana de Santa Helena, em setembro de 2005, quando fez reportagem sobre a exploração de crianças e adolescentes.
“Você nunca mais vai voltar ao Paraguai.” Essa foi a frase intimidatória que o jornalista Mauri König relata ter ouvido de um dos três homens que o espancaram e quase o mataram estrangulado
com uma corrente numa estradinha vicinal do município paraguaio de San Alberto. Um dos autores da agressão vestia farda da Polícia Nacional paraguaia.

König não estava lá por acaso. Ele fazia uma reportagem sobre a existência de jovens brasileiros nos quartéis do país vizinho. O atentado, que virou notícia em vários países e obrigou o governo paraguaio a reconhecer as práticas de violação de direitos humanos no país, ocorreu em 19 de dezembro de 2000. O Ministério Público do Paraguai abriu investigação, mas um ano depois o caso foi arquivado sem que os autores do crime fossem identificados.

Os agressores de Mauri König em San Alberto continuam impunes, mas não só a reportagem teve continuidade – provando que havia jovens brasileiros no Exército paraguaio – como houve desdobramento com a revelação de uma tropa fantasma, criada pelas Forças Armadas para alimentar um esquema gigantesco de corrupção. O aviso dos criminosos não foi suficiente para intimidar o jornalista: desde o atentado, König voltou várias vezes ao Paraguai para reportagens investigativas.

Essa é uma das muitas histórias reais que marcam o trabalho desse paranaense de Pato Branco. São casos pouco mostrados pelos meios de comunicação e que para elucidá-los é necessário ir aos limites do bom jornalismo.

Mauri König começou na profissão em Foz do Iguaçu, na início dos anos 90. Mesmo atuando longe dos grandes centros, suas reportagens extrapolaram as fronteiras do Paraná. Neste ano, ele reuniu alguns dos seus trabalhos em livro, muitos deles premiados por instituições brasileiras e estrangeiras. Narrativas de um correspondente de rua, editado pelo Instituto Cultural de Jornalistas dos Paraná, revela a dura realidade de pessoas condenadas pela miséria e o esquecimento. É também uma denúncia de algumas das mazelas que afetam os países da América do Sul.

Nesta entrevista ao Certas Palavras, Mauri fala abertamente das suas concepções sobre o jornalismo dos dias atuais, defende a exigência de formação universitária para os jornalistas e critica a pressa em se publicar qualquer informação na frente do concorrente.


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Nilton Rolim

Nilton Rolim / O jornalista Mauri König após sofrer atentado no Paraguai: vida em risco para revelar o recrutamento ilegal de adolescentes brasileiros pelo serviço militar paraguaio.O jornalista Mauri König após sofrer atentado no Paraguai: vida em risco para revelar o recrutamento ilegal de adolescentes brasileiros pelo serviço militar paraguaio.
Após o surgimento da internet e de outras mídias eletrônicas, não faltam previsões sobre o fim do jornal em papel. Como você vê o futuro do jornalismo impresso?

Essa dúvida campeia o meio jornalístico desde a popularização da internet, há bem uns 15 anos. Mas quem sabe dizer o papel do impresso no mundo daqui a 10, 30, 50 anos? Talvez encontremos alguma luz explicativa no passado. Há muito vem-se dizendo que um meio informativo suprimiria outro. No século 15, Victor Hugo chegou a profetizar que o alfabeto iria matar as imagens ao confrontar o livro com a catedral. Cinco séculos depois, na década de 1960, cogitou-se a morte do livro pela televisão a partir da publicação de A Galáxia de Gutemberg, por Marshal McLuhan. Agora, brotam profecias, e mesmo imprecações, acerca do embate impresso versus internet. De fato, a internet já matou os manuais e enciclopédias, assim como antes o livro havia matado os pergaminhos, obeliscos e outras formas de transmissão de informação hoje tidas como arcaicas. Humberto Eco já prenunciou a passagem de uma memória vegetal para uma memória mineral, isto é, os meios impressos (memória vegetal) começam a ceder espaço aos suportes digitais (memória mineral, que tem por base o silício). Um dos desafios da mídia impressa para sobreviver é interagir e co-habitar com o pixel até onde e quando puder. No caso da imprensa, muitos jornais se tornaram instituições nacionais ao longo de décadas de história. Isso tem valor imensurável, e seus donos não vão querer abrir mão disso tão facilmente.

No século 19 e início do 20, os jornais foram marcados pelo jornalismo opinativo e literário. Havia mais opinião – artigos, crônicas – do que notícia feita por repórteres. Nos anos 70, 80 e 90 do século passado também houve uma tendência que marcou época: adotou-se um jornalismo "pasteurizado", igual em todos os jornais. Os artigos e as crônicas, assim como as reportagens longas, se tornaram raras. Hoje, no entanto, há evidências do retorno de grandes reportagens, com textos em que o autor pode mostrar mais seu estilo. Também há mais espaço para opinião. Você acha que essa é a tendência, a de permitir a diferenciação do trabalho dos repórteres?

A grande reportagem ainda é e sempre será a alma do jornalismo. O sedentarismo característico da sociedade moderna parece ter impregnado também as redações. As novas tecnologias reduziram não só o tempo entre os acontecimentos e os receptores, reduziram os ânimos dos jornalistas. A internet inaugurou um novo tempo no jornalismo, um tempo de experimentações que já dura quase duas décadas e ainda não se sabe ao certo até quando e onde vai. Antes, notícia boa era notícia bem apurada; hoje, notícia boa é notícia publicada um segundo antes do que o concorrente. E assim derrubam-se aviões que não caíram, prende-se quem não foi preso, mata-se quem não morreu. A pressa tem provocado barrigadas históricas, engrossando o anedotário jornalístico mundial. O que diferencia um jornal do outro é justamente o conteúdo diferenciado e de qualidade. Com o tempo, o leitor vai se dando conta disso tudo e elege aquele que lhe oferece algo mais do que o noticiário pasteurizado encontrável ipsis literis nos concorrentes. Por isso, repito: a grande reportagem ainda é e sempre será a alma do jornalismo. Ela pode até arrefecer diante dessas novidades, mas nunca morrerá. Sempre haverá repórteres dispostos e ir na contramão dessas tendências em nome do bom jornalismo.

Uma parte da crítica afirma que a mídia tornou-se onipotente. Para alguns desses críticos, a mídia é o Deus da pós-modernidade. Na sua opinião, a mídia pode tudo ou é exagero?

Ninguém pode tudo, obviamente. Não seria a mídia a quebrar a regra, embora parte dela se julgue mesmo onipotente. Essa parcela atua quase sempre no limite da responsabilidade, num vale-tudo para se sobressair à concorrência, nem que para isso seja preciso mentir, subornar e usar métodos ilícitos para obter informações. Fazem isso quando o ideal seria fazer com suas fontes e leitores um pacto baseado na confiança e no compromisso de só publicar a verdade, nunca prometer o que não pode cumprir, não pagar por informações, respeitar a identidade do informante no caso de eventuais riscos para ele. Todo profissional deve exercer seu ofício com tal zelo de forma que dele não se desvirtue nem se lance dúvidas.

O que mais impede o exercício da liberdade no jornalismo, o poder político ou o poder de mercado? E a arrogância de chefes e publisheres não atrapalha?

O cotidiano de uma redação é capaz de abalar qualquer visão romântica sobre o jornalismo. Afinal, empresa de comunicação visa lucro como qualquer outra. Assim, a todo instante está-se sujeito às ingerências do poder político ou de mercado. Mas há meios de furar o muro que põe os interesses públicos de um lado e os interesses corporativos de outro. Cabe ao jornalista encontrar o ponto de equilíbrio dessas forças, sem a necessidade de ficar em cima do muro. Mesmo nesse contexto é possível fazer jornalismo sério e de qualidade. Como? Mais pelo empenho do profissional do que por uma linha editorial. Um chefe ou publisher não resiste ao poder de argumentação de um jornalista com sólida formação intelectual e comprometido com sua missão de comunicador. Ou seja, a cobertura bem feita de temas que sejam efetivamente relevantes para a sociedade dependem mais do interesse do jornalista do que da empresa de comunicação. Em geral, essas pautas são pensadas, estruturadas e executadas tomando-se como base o interesse e o conhecimento do profissional de imprensa. Quanto mais jornalistas engajados tivermos nas redações, maiores as chances de termos ampliado o espaço desses temas. Portanto, o que mais impede o exercício da liberdade no jornalismo é a incompetência ou a falta de compromisso do profissional com um jornalismo voltado aos interesses públicos. Já há algum tempo o "jornalismo de dossiê" transita livremente por muitas redações do país. Isso se deve mais ao comportamento apático e preguiçoso dos jornalistas do que propriamente a uma política editorial das empresas de comunicação, embora algumas tenham adotado o vale-tudo para desbancar a concorrência. Nessa briga, muitos jornalistas não se dão o tempo necessário de maturação profissional e vêem nesses dossiês uma forma de encurtar o caminho para o sucesso. Espertos, os lobistas sabem identificá-los nas redações.



Albari Rosa/Gazeta do Povo

Albari Rosa/Gazeta do Povo / Mauri e o repórter fotográfico Albari Rosa, em Santa Helena, Venezuela, em 2005.Mauri e o repórter fotográfico Albari Rosa, em Santa Helena, Venezuela, em 2005.

Alguns jornalistas condenam a prática de tentar explicar os fatos por meio de especialistas e analistas. Afirmam que os jornalistas estão abrindo mão do seu papel de investigar e esclarecer os fatos. Muitos repórteres ouvem especialistas e analistas e fazem as matérias com base exclusivamente na opinião desses estudiosos. Isso é bom para o jornalismo?

Toda reportagem é uma história, e toda boa história deve conter bons personagens, boas fontes de informações e bons dados técnicos ou estatísticos. Pode-se suprimir um ou outro desses elementos, mas acho difícil construir uma boa reportagem sem pelo menos dois deles. As fontes conferem veracidade às informações, uma vez que o repórter não sabe tudo, não pode tudo e não está em todo lugar para obtê-las por conta própria; os dados técnicos ou estatísticos vão dimensionar o assunto abordado, seja num contexto local, nacional ou mundial; os personagens humanizarão a reportagem e fazer com que o leitor se sinta de alguma forma representado nessa história. Os especialistas e analistas entram na categoria "fontes", necessárias para explicar as causas e conseqüências do fenômeno reportado. Mas elas podem virar um problema quando o jornalista baseia todo o trabalho unicamente nessas fontes, interpostas como filtros da realidade entre o repórter e seu interlocutor. Obviamente isso é péssimo não só para o jornalismo, mas para o leitor. O ideal é o bom senso do meio termo.

Você está satisfeito com o que se publica hoje nos jornais brasileiros?

Em geral, não. Um dos grandes erros da imprensa é ficar apenas no relato superficial dos acontecimentos. Falemos da violência, tema tão recorrente no Brasil. Grande parte dos jornalistas desconhece os diversos organismos governamentais e não-governamentais que dispõem de dados sobre a temática. Na cobertura jornalística de um crime sofrido ou praticado por crianças ou adolescentes, por exemplo, em geral é lançada sobre a família uma responsabilidade excessiva, sem que se faça a contextualização daquela ocorrência ou uma abordagem sobre a falta de políticas públicas de atendimento aos jovens e às famílias vulneráveis à pobreza. De forma geral, os meios de comunicação não enxergam o contexto da violência porque não discutem soluções para o problema. O conjunto da imprensa se preocupa muito pouco em apresentar as causas, e menos ainda em apresentar soluções. Em uma cobertura ideal seria importante não só discutir soluções, mas também narrar os casos de violência com a trajetória e história de vida das vítimas e dos agressores, pois suas biografias revelam os determinantes sociais, culturais e econômicos, o que poderia revelar causas, contextos e fatores que os levaram à violência. A transformação de um furo em uma grande reportagem, e mesmo a qualificação da cobertura jornalística, passa, portanto, pelo entendimento mais a fundo dos casos retratados na imprensa e pela qualificação do profissional de comunicação. Nesse particular, ainda há um enorme caminho a percorrer. Há nas redações pessoas pouco preocupadas com a função social do jornalismo. Crêem que se trata de exploração da miséria ou uma forma de chocar o leitor. Tenho opinião contrária e por isso mesmo a imponho até os limites de minha possibilidade, pois acredito que é expondo as mazelas sociais e a fragilidade das autoridades que vamos provocar transformações. Este é o papel do jornalismo: interferir na realidade no que ela tem de mais injusto. Não se trata de retórica, se trata de missão jornalística.

No livro que você acaba de lançar, Narrativas de um correspondente de rua (Editora Pós-Escrito), as reportagens denunciam a dura realidade de pessoas que pertencem ao Brasil que não deu certo. Como diz o título, é um trabalho de quem vai para a rua. Você não acredita no jornalismo dos bastidores do poder – palácios de governo, Legislativo, Judiciário?

O jornalismo é antes de tudo um instrumento de transformação de pessoas e de realidades. Cada reportagem pode ser um estopim de mudanças ao interferir na realidade naquilo que ela apresenta de mais injusto, ou a partir do instante em que leva o leitor à reflexão. Para quem vive da escrita, não há nada mais frustrante do que não ser lido. Escrever para ninguém é se anular profissionalmente. Invariavelmente, o jornalismo burocrático de gabinete ou dos bastidores do poder cai nesse buraco negro, porque é escrito para uma minoria. A cobertura desses bastidores é fundamental para o entendimento da política local ou nacional, mas não da forma descontextualizada como se costuma fazer. Em geral, o leitor não se identifica com esse tipo de cobertura porque não se vê representado nas reportagens.

O Supremo Tribunal Federal (STF) está para julgar um recurso do Ministério Público Federal sobre a legalidade da exigência do diploma em curso superior de Jornalismo para o exercício da profissão. A Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) entregou ao STF um abaixo assinado com mais de 20 mil assinaturas pedindo a manutenção da exigência. De que lado você está?

Em qualquer profissão, a formação acadêmica é um tempo não só para o aprendizado de normas técnicas, mas sobretudo para reflexão, para se criar vínculos e assumir compromissos com a carreira escolhida. O que se deveria discutir é a qualidade do ensino, não a dispensa da formação específica para exercer o jornalismo. A proliferação de cursos e a conseqüente baixa qualidade na formação de profissionais ocorre também em outras áreas, como a Medicina e o Direito, só para citar dois exemplos. Não estou aqui querendo fazer comparações ou estabelecer graus de importância entre uma profissão e outra, pois o trabalho de um jornalista pode ser tão importante para a sociedade (como de fato é, para o bem ou para o mal) quanto o de um médico ou advogado. O público sabe dessa importância, tanto que pesquisa nacional feita pelo instituto Sensus, divulgada dia 22 de setembro, revela que 74,3% da população brasileira é a favor da exigência do diploma para o exercício da profissão de jornalista. Dos dois mil entrevistados em todo o país, só 13,9% se disseram contra e 11,7% não souberam ou não responderam à consulta popular.

Qual reportagem que você não fez e gostaria de ter feito? E a que você sonha em fazer um dia?

Até há pouco, tinha a ambição de cobrir uma guerra, mas percebo-me realizado profissionalmente como correspondente de rua mesmo. É desta forma, tratando de temas mais próximos e de interesse imediato dos leitores, que me sinto mais útil como jornalista. Ainda assim, sonho com a possibilidade de ir a uma guerra, para melhor traçar o paralelo de ambas as coberturas.

Você já conquistou vários dos principais prêmios do jornalismo brasileiro e também teve seu trabalho reconhecido no exterior. O que mais você espera da profissão?

Espero ser capaz de continuar aprendendo. O que de pior pode acontecer a uma pessoa é julgar-se incapaz de novos aprendizados, ou, pior, se considerar plena de saber. A preguiça e a soberba são extremos a serem evitados. Minha intenção agora é dedicar-me, também, à ficção.

*****


Quem é
Mauri König nasceu em Pato Branco, sudoeste do Paraná. É graduado em Letras e Jornalismo. Trabalhou no O Estado do Paraná e Folha de Londrina, além de ter sido correspondente de O Estado de São Paulo. Atualmente é repórter especial da Gazeta do Povo, em Curitiba. Entre os prêmios que conquistou estão dois Esso regional, dois Vladimir Herzog, dois Lorenzo Natali (União Européia) e dois Embratel regional.

25/09/2008 às 00:53


 /
Gente,
quem curte literatura contemporânea, alternativa, tem mais é que batalhar para conseguir um exemplar do livro de contos VOCÊ ESTÁ AQUI OU NÃO ESTÁ EM LUGAR NENHUM, do jornalista e escritor Marcio Reinecken. Boa cabeça, um cara e tanto, ele narra a nossa geração pós-tudo, urbana, de mil sensações ao mesmo tempo.
Olha, pra não dizerem por aí que eu estou escrevendo isso e aquilo do livro só porque o Marcio trabalha comigo na Gazeta do Povo, deixo o espaço para ele mesmo, o autor, e outros seres dessa Curitiba pós-moderna se manifestarem.

*****

"Você está aqui, ou não está em lugar nenhum... Óbvio? Nem tanto. Afinal, nessa exata hora você está, sem dúvida, em lugar nenhum. Se encontra na abstração da sua cabeça, uma abnegação de sentidos reais, por sensações virtuais, quase uma internet. Fuga? Talvez. Mas quem vai saber – e você, de certo, não sabe nada. Não me surpreenderia que estivesse ouvindo uma música – An Honest Mistake.mp3, Bravery? – no lugar dos sons cotidianos que continuam a toda, ou são engolidos por um silêncio súbito. Sabe? Alguma coisa meio Fellini, meio Antonioni... Mas você sabe que não é nada disso. No fundo, você sabe, ou deveria saber, que está aqui... ou não está em lugar nenhum."

Marcio Reinecken, autor

*****

"Há textos mais diretos, outros que, a princípio, parecem desconexos. Uns são nitidamente inspirados em experiências próprias, mas há também os que são pura (ins)piração. As referências são variadas, mas o autor se alimenta de coisas comuns àqueles que gostam de cinema, música e literatura, da cultura pop em geral. Eu tenho meus contos preferidos, que bateram mais para mim (ele sabe quais, dei um toque) – e não os revelo porque não quero pautar sua leitura. Como sempre, a apreciação do livro vai depender muito de suas referências e experiências. Mas certamente você não vai ficar indiferente a este trabalho. Conselho: entre nessa viagem e deixe-se levar pelos sentimentos e sensações, o caminho certo para uma ótima experiência com a leitura – assim como a apreciação de todas as formas de arte."

Rudney Flores, jornalista e crítico

*****


"Conheci o Marcio, o Gaúcho, através do E1000 do Subburbia. É mais um cabeça pensante que circula pelas ruas de Curitiba que aporta no UV para anunciar o lançamento de seu livro “Você está aqui ou não está em lugar nenhum” que fala do cotidiano sem moldura, nu e cru, aliás mais cru do que nu. Tomara que os alternativos e simpatizantes da cidade possam seguir o exemplo do Marcio pois a cidade tem de tudo, menos gente que escreve. Estou lendo o livro (é massa ler no banheiro!!!) e indico pra vocês. Uma mistura de videoclipe pop rock com copos quebrados, TPM com chá-verde e finais inesperados. 13 contos. 13 razões. 13 motivos. 13 tentações."

NERI, Último Volume, Lúmen FM

*****



 /
“Você está parado no meio de um quarto bagunçado ou não está em lugar nenhum. Sua cabeça dói, ou você não tem cabeça. Do lado de fora, os sons cotidianos continuam a toda, ou são engolidos por um silêncio súbito. Mas aqui dentro há um burburinho crescente, desconexo, como se você estivesse num filme, alguma coisa meio Fellini, meio Antonioni, mas você sabe que não é nada disso.
Também não se lembra de ter visto nenhum burburinho nos filmes de Fellini e Antonioni. E não se lembra de ter visto nenhum filme de Fellini ou Antonioni.
No som atrofiado do computador, Bravery, An Honest Mistake.mp3, repeat, mas você não preferia estar num bar. E pensa que deveria ao menos saber um pouco mais sobre esse universo, a dança, ou formas semelhantes de se sentir vivo sem a necessidade de refletir na velocidade de todos os instantes por segundo. Mas não sabe.
Você olha para os pés, depois para as mãos. Se tivesse um espelho talvez fosse o momento de sair da inércia, mas você não tem um espelho. Então passa a mão pelo rosto, a barba. Então passa a mão demoradamente pela nuca. Você tem medo de morrer de AIDS, mas nem lembra a última vez que transou. Você também tem medo de morrer de câncer.
Você sorri quando pensa em como seria bom viver perigosamente. Você resiste ao impulso de ligar a tevê, mas acende um cigarro. Faz uma careta, como se estivesse à frente de uma garota. Ela é morena, cabelos lisos, tem um rosto liso, o nariz e a boca que de vez em quando são encobertos pelas mechas do cabelo. Comprido. Ela é alta e está de calça jeans rente ao corpo, parece ter uns 22. É difícil de explicar.
Mas o apartamento, com exceção de você, está vazio. E você está completando 35 hoje.
Você continua parado no meio do quarto, roupas jogadas para todo lado. Há também outros tipos de formas desconexas no ambiente. No descanso psicodélico da tela do computador, por exemplo, ao som repetido de An Honest Mistake.mp3, Bravery.
Stop.”

Trecho do conto VOCÊ ESTÁ AQUI OU NÃO ESTÁ EM LUGAR NENHUM.


*****

AGENDA
Lançamento: Fnac Curitiba, dia 30 de setembro, terça-feira, às 19h30
Com exposição das ilustrações da artista gráfica Estele Flores, baseadas nos contos do livro VOCÊ ESTÁ AQUI OU NÃO ESTÁ EM LUGAR NENHUM e leitura de trechos da obra.
Endereço: Shopping Barigüi, Curitiba.


Festa de lançamento: La Lupe, dia 3 de outubro, a partir das 22 horas.
Show com a banda Subburbia e exposição das ilustrações da artista gráfica Estele Flores, baseadas nos contos do livro VOCÊ ESTÁ AQUI OU NÃO ESTÁ EM LUGAR NENHUM
Endereço: Trajano Reis, 351, Curitiba.

*****

Quem é


 /
Márcio Luiz da Rosa Reinecken, Marcio Reinecken ou Gaúcho, nasceu em Pelotas (RS), no dia 31 de agosto de 1973, e está radicado em Curitiba (PR) há 14 anos. É jornalista há oito anos, formado na Universidade Tuiuti do Paraná. E, se interessar, gosta de MPB, Indie Rock, e Fante, Salinger, Fitzgerald – mas isso, a influência literária, não tem nada a ver com este livro.

Contatos de grau algum
mreinecken@bol.com.br
myspace.com/marcioreinecken
www.voceestaemlugarnenhum.com.br

22/09/2008 às 23:31

Poucos poetas cantaram a Primavera como Florbela Espanca (1894-1930)
Também pudera
flor bela

...



 /
Primavera

É Primavera agora, meu Amor!
O campo despe a veste de estamenha;
Não há árvore nenhuma que não tenha
O coração aberto, todo em flor!

Ah! Deixa-te vogar, calmo, ao sabor
Da vida... não há bem que nos não venha
Dum mal que o nosso orgulho em vão desdenha!
Não há bem que não possa ser melhor!

Também despi meu triste burel pardo,
E agora cheio a rosmaninho e a nardo
E ando agora tonta, a tua espera...

Pus rosas cor-de-rosa em em meus cabelos...
Parecem um rosal!
Vem desprendê-los!

Meu Amor, meu Amor, é Primavera!...


...


Há uma Primavera em cada vida

Amar!

Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: Aqui... além...
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente
Amar! Amar! E não amar ninguém!

Recordar? Esquecer? Indiferente!...
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma Primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!

E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder... pra me encontrar...

........


A tua voz na Primavera

Manto de seda azul, o céu reflete
Quanta alegria na minha alma vai!
Tenho os meus lábios úmidos: tomai
A flor e o mel que a vida nos promete!

Sinfonia de luz meu corpo não repete
O ritmo e a cor dum mesmo beijo... olhai!
Iguala o sol que sempre às ondas cai,
Sem que a visão dos poentes se complete!

Meus pequeninos seios cor-de-rosa,
Se os roça ou prende a tua mão nervosa,
Têm a firmeza elástica dos gamos...

Para os teus beijos, sensual, flori!
E amendoeira em flor, só ofereço os ramos,
Só me exalto e sou linda para ti!

21/09/2008 às 01:53


Creative Commons

Creative Commons /
Alguém pode dizer que é falta de assunto. Eu poderia escrever sobre as divergências quanto ao uso de grampos telefônicos, criticar a contradição da meca do capitalismo – que decidiu estatizar empresas privadas para salvar o que não tem conserto – ou falar das obscuridades da razão humana, tão claramente analisadas por Immanuel Kant. Poderia ainda dizer do estigma curitibano de fazer tempo bom durante a semana e chover, quase sempre, no sábado e domingo. E (por que não?) tecer esperança de uma primavera de dias ensolarados. Mas o tema que me comove é outro.

Milhões em todo o mundo já viram o vídeo, outros milhões leram o texto. É assunto batido. Tudo bem, vá lá, mas numa época em que o mundo mergulha num oceano de crise sem saber a profundidade, nunca é demais tratar desses temas. Trata-se de um texto/vídeo intitulado A Terra em Miniatura. Pode não ter lá o rigor científico – muitos dados têm mais de 10 anos –, mas nunca é demais. Mesmo que seja para lembrar que o planeta, muitas vezes, não é da cor que pintamos. Mesmo que Iuri Gagarin tenha anunciado: "A Terra é azul".


*******


A Terra em Miniatura

Se pudéssemos reduzir a população da Terra a uma pequena aldeia de
exatamente 100 habitantes, mantendo as proporções existentes atualmente,
seria algo assim:

- 57 asiáticos
- 21 europeus
- 8 africanos
- 4 americanos

- 52 mulheres
- 48 homens
- 70 não seriam brancos
- 30 seriam brancos
- 70 não cristãos
- 30 cristãos
- 89 heterossexuais
- 11 homossexuais

- 6 pessoas possuiriam 59% de toda riqueza
- 6 (sim, 6 de 6) seriam norte-americanos
- Das 100 pessoas, 80 viveriam em condições sub-humanas.
- 70 não saberiam ler, 50 sofreriam de desnutrição
- 1 pessoa estaria a ponto de morrer e 1 bebê estaria prestes a nascer
- Só 1 teria educação universitária
- Apenas 1 pessoa teria computador
- 40 pessoas não teriam acesso a água tratada


Restaria saber quantos são:
- os sem esperança
- os arrogantes
- os desprezados
- os sem escrúpulo
- os bons e os maus
- os sem destino
Os...



 /


Terra! Terra!
Por mais distante
O errante navegante
Quem jamais te esqueceria?...

Caetano Veloso

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